Como um trauma da infância influencia na formação da identidade?
[Imagem Danielle Bahls]
A formação de identidade é um processo complexo que ocorre
ao longo da vida. A construção da identidade, incluindo o sentimento de ser
suficientemente bom, a capacidade de integrar harmoniosamente emoção e razão, a
consciência básica do estado emocional, sentir-se seguro e saber quem somos
realmente, é afetada pelos traumas de infância. O que acontece é que a
sobrevivência básica prevalece sobre o desenvolvimento equilibrado do “eu”.
Um trauma em tenra idade pode mudar o desenvolvimento do
cérebro. De fato, sabe-se que um ambiente onde prevalece o medo e a negligência
gera diferentes adaptações dos circuitos cerebrais, em comparação com um
ambiente onde a criança se sente segura, protegida e amada. E o pior é que,
quanto mais cedo essa angústia for vivenciada, mais os efeitos serão profundos
e duradouros.
Portanto, muitas vezes a identidade de um adulto que sofreu
traumas de infância está organizada em torno da necessidade de sobreviver e alcançar
um nível básico de segurança em suas relações com os outros. Isso o leva a um
ciclo vicioso no qual, por um lado, revive experiências desencorajadoras e
traumáticas e, por outro lado, tende a evitar experiências orientadas para o
crescimento.
A pessoa fica presa em um círculo vicioso de defesa
no qual, por não estar disposta a sofrer, evita se ariscar em novas
experiências, acaba se mantendo refém de coisas que não entende e que
não estão em consonância com seus valores pessoais. No entanto, mesmo assim, a
pessoa se mantém nessa área por comodismo, que traz, momentaneamente, conforto
e segurança.
Pessoas nessa situação identificam-se muito com um “eu
traumático”, à custa de si mesmas, de um sentido mais inclusivo e flexível. Se
desprendem do seu ambiente e de si mesmos desde o início, como um mecanismo de
sobrevivência, e podem permanecer desconectados de si mesmos durante a
infância, adolescência e até mesmo na vida adulta, mesmo depois de saírem do
ambiente tóxico. Na prática, eles continuam experimentando a necessidade de
sobrevivência.
Para alcançar nossos verdadeiros objetivos e conseguirmos
nos tornar quem realmente somos e queremos ser, é necessário aceitar de
forma radical o mal-estar e as frustrações que podem aparecer no caminho.
Sirlene O. Sousa
Psicanalista, Psicoterapeuta e EFT
(62) 98587-7335

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