INVEJA E CIUMES
Tem-se a tendência de
confundir inveja com ciúme. A
linguagem cotidiana parece evitar o conceito de inveja, e tender a substituí-lo
pelo de ciúme.
O ciúme baseia-se em uma relação de amor e visa ter o objeto amado, e,
à remoção do rival. O ciúme está mais próximo do sentimento
de “cuidar” do objeto amado,
protegê-lo - às vezes de forma exagerada, deixando de ser ciúmes e passa a ser posse; (mas isso é pra outro post).
A inveja é a relação em que o
sujeito deseja alguma posse ou
qualidade do objeto desejado (do outro) – fundir-se a ele ou destruí-lo. A inveja que o homem tem da potência ou das posses de outro, da
intelectualidade, ou das oportunidades, por exemplo. O desejo de ter, e, achar-se impotente para conseguir, alcançar o que
observa, imaginativamente, que o Outro tem.
Podemos
perceber, como de forma dissimulada, os invejosos
se apresentam diante das situações corriqueiras da vida cotidiana. Na sua
grande maioria, são pessoas com as “melhores intenções”, agindo para o “bem”
dos outros, pontuando somente as situações negativas, (só vistas por eles, de
forma bem colorida), numa disposição manifesta de que somente “poderá
acrescentar” na amizade ou no relacionamento. São fofoqueiros de
plantão, “pré-ocupados” com o “bem
estar” dos outros. Têm de ser “honestos”. Sentem-se incomodados com a
felicidade ou com a paz de espírito de seus “amigos”.
A própria fonte de desejo é
tornada má, e, portanto, tem de ser destruída ou tornada obscura,
ridicularizada ou até mesmo anulada, jamais poderá ser considerada boa
por não poder ser alcançada. É esse aspecto danificador da inveja, que é tão destrutivo.
A inveja, embora surgindo a partir do desejo de ser igual, ou obter o
que está na posse do outro, é impregnada de instinto de destruição e morte. A
media que cresce a ansiedade, o sentimento de culpa torna-se aumentado, e a necessidade de destruir essa figura de
“desafeto/afetuoso” acaba por tornar-se prioridade, assim em fantasia
ataca, pelo olhar (mau-olhado), pelo
“descaso”, ou discursos de
desaprovação ou julgamento, para poder salvar-se de sua própria inveja, e dar a
ela um sentido justificado. São os penosos sentimentos de inveja, que acarretam o desejo de danificar as qualidades dessa
figura, que lhe pode dar esses sentimentos penosos de impossibilidade ou
impotência.
Fundindo-se a inveja e a destrutividade voraz, o
desejo é conduzido à destruição desse Outro, dessa figura representativa da própria impossibilidade de ser ou ter, de modo a que não reste
mais nada a ser invejado. – “O que os olhos não vêm o coração não sente!”
Ao tentar satisfazer a inveja, o
sujeito, é torturado por solidão, remorso, culpa e perseguição; a infelicidade
cresce. Torna-se um processo obsessivo e
compulsivo, onde nada mais se percebe além daquilo ou de quem se tenta
destruir, aniquilar, na intenção de incorporar energia de apresso e gratidão.
A fantasia de ser muito “bom”, e por isso mesmo, deverá ser reconhecido pelos outros, naquilo que não consegue se
reconhecer, tornando-se mais ansioso, angustiado e desprestigiado, tende a
tornar-se isolado e agressivo. Torna-se submisso-agressivo para torna-se figura de destaque. As criticas e a
agressividade auto impostas, explode de várias formas e tende a descarregar em
lugares e figuras cuja representatividade é a de sua própria impotência.
Em um desenvolvimento normal, a inveja se torna mais integrada, a gratificação experimentada, estimula a admiração, o amor e a
gratidão. A inveja consciente de que se pode ser tão bom, ou melhor, que alguém
ou alguma coisa, A inveja com gratidão se utiliza das qualidades do Outro como
exemplo a ser seguido ou como um sinalizador em seu próprio desenvolvimento
pessoal, e que, portanto, gera gratidão por encurtar o caminho de aprendizado. “Quero
ser igual a... vou conseguir isso também... se ele (a) conseguiu é possível...”.
Somente a gratidão supera e modifica a inveja. Assim num círculo benevolente, a
inveja diminui à medida que aumenta a gratidão; a diminuição da inveja permite
maior gratidão, que por sua vez, incrementa a diminuição da inveja destrutiva,
aumenta a gratificação e o fortalecimento das qualidades pessoais modificadas a
partir de um Outro, cujas qualidades lhe foram úteis.
O sentimento de inveja, embora
enfraquecido, sempre permanece. Essa inveja que permanece, quando não mais
sentida como destrutividade devastadora,
não mais dará origem a sentimentos avassaladores de culpa, ansiedade, medo e perseguição.
Conforto não
é sinônimo de harmonia, assim como prazer não é sinônimo de felicidade. Sem desconfortos
e desprazeres estaríamos fortemente condicionados à estagnação. A inveja, o
sentimento de superar o outro, é a grade alavanca de desenvolvimento e
aprimoramento do ser humano. Mas, a inveja, sem gratidão, torna-se voraz,
geradora de destruição e estagnação.
Vida é
desafio, é mudança, é conquista e, sobretudo, é um diálogo franco e direto com
a realidade.
“A alma não tem segredo que o comportamento
não revele” (Lao-Tsé)
Sirlene O. Sousa
Psicanalista,
Psicoterapeuta Integrativa, EFT

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