A ERA DO PRAZER tóxico




        Os indivíduos nunca pensaram tão pouco como nos dias atuais. As ideologias acabaram. Hoje a saúde mental já não se origina mais da harmonia com o ideal de cada um, mas do objeto que possa trazer satisfação. Não há limites. Há uma nova forma de pensar, de julgar, de comer, de transar, de se casar ou não, de viver a família, a pátria e os ideais.
        A partir do momento em que há no indivíduo um tipo de desejo, ele se torna legítimo, e é legítimo que esse indivíduo encontre sua satisfação. A posição ética tradicional, metafísica, política, que permitia às pessoas orientar seu pensamento, está em falta. O excesso se tornou a norma.
        Nunca se pensou tão pouco. O trabalho do pensamento é comandado por aquilo que produz obstáculo. Mas nada mais representa obstáculo, não sabemos o que há para pensar.
        O indivíduo não é mais dividido, entre ser e não ser, saber e não saber; não se interroga sobre sua própria existência, sobre suas necessidades. Como faltam referências, o indivíduo se vê exposto, frágil e deprimido, necessitando sempre da confirmação externa, alguém que o valide em sua falta de si mesmo. Assim, o sujeito pode se ver murcho, esvaziado, em queda livre, em uma busca frenética por alguma coisa não se sabe o que, nem onde, ou porque está procurando, gerando uma frequência de estados depressivos diversos.
        A imprensa e a mídia substituíram as fontes de sabedoria de outrora. Sentimentos, sensações e emoções não podem e nem devem ser vistas, estar à frente para o desenvolvimento do livre pensar; daí resulta um indivíduo manipulável, manipulado e manipulador. Suas escolhas, opções e comportamento de consumidor, de produtos e pessoas, é que organiza seu mundo.
        Hoje, para se ter acesso à satisfação não é mais preciso passar pela perda, que era uma fonte de neuroses que o levava a superar a frustração, se fortalecer e ter novas experiências nutritivas, atualmente a depressão tomou seu lugar, a desistência em tentar algo novo, a culpa avassaladora de decepção consigo mesmo, não ser suficiente, não ser bom, não ser o ideal de pessoa proposta pela ideologia das massas e da mídia.
        A exposição que a tecnologia oferece atualmente nos cerca de receitas prontas para alcançar o sucesso. Que cada um tem algo a sugerir para que as pessoas encontrem as melhores soluções, seja qual for a área da vida. Porém se esquecem que cada indivíduo tem sua história de vida, e que sua realização não se restringe a ter 1 milhão de dólares até os 25 anos, ou ser o melhor em qualquer área de atuação. 
        A proposta deste artigo, então, é propor uma reflexão sobre a importância de amenizar a obrigação – tanto imposta por nós, pelos outros e tanto quanto pelos meios de comunicação – de parecer ser perfeito e altamente produtivo, abrindo mão de viver livremente, de uma forma que é confortável para você.   
        Vida é desafio, é mudança, é conquista e, sobretudo, é um diálogo honesto, franco e direto com a realidade.


Sirlene O Sousa
Psicanalista, Psicoterapeuta Integrativa, EFT
@terapiaintegrativabr 


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