Como tratamos do sofrimento psicológico hoje!
Uma das
expressões mais pluralistas da existência humana talvez seja o sofrimento.
Sofre-se pela morte de alguém, por um amor que foi embora, pela perda de um
sonho, por medo da solidão, por tédio, por um projeto malsucedido.
Motivações
possivelmente infinitas, mas que, sob a regência da era dos diagnósticos, são
resumidas a "sou bipolar",
"sou hiperativo", sou borderline” ou "sou ansiosa" -
somos aquilo de que sofremos, parece ser a mensagem. Lugares no mundo definidos
a partir de um conjunto de sintomas, com pouca ou nenhuma indagação sobre a
relação deste sofrer com os modos de vida do sujeito.
Seriam as
epidemias citadas acima mero resultado de déficits individuais e distúrbios
neuroquímicos? Ou elas estariam dando pistas de nossas formas de viver e de nos
relacionar?
Os
adoecimentos psíquicos estariam denunciando impasses e descontentamentos dos
sujeitos com o mundo contemporâneo.
Falar em
patologias do social não refere a uma sociedade adoecida ou que deixou de ser
saudável. São patologias de cada sujeito, que têm em comum serem forjadas a
partir dos complexos entrelaçamentos com a sociedade.
A depressão, diagnosticada banalmente no discurso popular e também
por profissionais (sem formação psicopatológica específica), como
ginecologistas, tem sido usada para nomear as mais diferentes formas de
sofrimento e de mal-estar no mundo atual - daí seu caráter assustadoramente epidêmico.
O sofrimento
por um luto, que se estende, tem chances de ser renomeado depressão. Uma expressão de dificuldade natural é ajustada a um
sintoma e, assim, obtém reconhecimento social.
O afastamento
de trabalhadores por depressão ou ansiedade na realidade brasileira ou a
adesão de jovens ao Estado Islâmico e facções, cabe a urgente interrogação sobre os
vínculos estabelecidos pelos sujeitos em suas vidas cotidiana e seus contextos
sociais.
Em uma era de
respostas prontas servidas a perguntas silenciadas, já que um conjunto de
sintomas suprime a indagação particular sobre cada um deles no que diz respeito à historia e a singularidade do próprio sujeito, portanto, o estranhamento
frente à generalização é um ato de inclusão.
Uma vez não inseridos nos
diagnósticos existentes, pode-se realmente dizer que não estamos sofrendo?
O sofrimento
visto por uma óptica generalizada, engessada e simplista, que apenas o justifique
de acordo com os interesses de pertencimento e de explicação do sujeito frente
a seu grupo social, não faz o apaziguamento do sofrer, apenas o faz reprimido em sua singular forma de sofrer.
Sirlene O. Sousa
Psicanalista, Psicoterapeuta Analítica e
Terapeuta em EFT.

Comentários
Postar um comentário